| Parar de Fumar – Uma reflexão sobre a vontade | |
|
Rosana Machado |
|
Recentemente recebi um pedido para orientar uma pessoa a parar de fumar. A partir do dia primeiro de janeiro, ela decidiu abandonar o vício, após mais de trinta anos fumando uma média de dois maços por dia. Sem o cigarro sente-se irritada, nervosa, tem brigado com todos, principalmente com as pessoas da família.
Este pedido despertou as lembranças de meu próprio processo, e um sentimento profundo de compaixão.
Como podemos viver nossas escolhas sem tanto desgaste emocional, foi um primeiro pensamento...
Em seguida compartilhei minha experiência com a pessoa que me pediu orientação e aqui faço um relato e reflexões.
Parei de fumar por duas vezes e de acordo com a Organização Mundial de Saúde 70% das pessoas que param de fumar tentam por várias vezes.
Na primeira vez permaneci sem fumar por um ano e meio. Penso que neste período era uma “fumante abstêmia”. Não tinha cigarro, mas sonhava que estava fumando, sentia uma vontade que com o decorrer dos meses foi se acalmando, mas não desapareceu. O que me manteve decidida foi lembrar das dificuldades dos primeiros dias.
Voltei a fumar principalmente porque buscava um outro alcance de mudança não apenas os benefícios físicos.
Ao voltar a fumar , gradativamente fui observando quais eram os aspectos emocionais que o cigarro me preenchia. Nesta época já meditava e fui me guiando pela intuição.
Fui reconhecendo o ato de fumar não como um hábito, aliás, quebrei as rotinas como por exemplo fumar após o almoço e aos poucos o desejo de fumar diminuiu.
Parei de fumar de forma automatizada, ao acender um cigarro buscava não me culpar e observar realmente as minhas necessidades naquele momento.
Após alguns meses, talvez três ou quatro, deixei finalmente de fumar. Não senti mais vontade, não fazia mais sentido ou me dava prazer.
Permaneci com cigarro em casa por quase dois anos e vivi tudo isso com muita leveza; lembrando a cada dia que eu podia e posso escolher. Esse pensamento me fortaleceu internamente.
Às vezes observo que muitas pessoas que largam o cigarro passam a perseguir os fumantes. Penso que talvez, ainda não superaram o vício, encontram-se na outra polaridade vivenciando sua escolha com muita rigidez. Afinal cada um de nós pode escolher o que quer para si mesmo, você não concorda?
Ao decidir escrever este texto, encontrei o site www.comoparardefumar.com.br, e a meu ver, seu método é muito semelhante ao que eu vivi intuitivamente, cerca de oito anos atrás. Fica aí a indicação.
Neste momento gostaria de falar um pouco mais a respeito da vontade. Quando voltei a fumar, não foi por falta de força de vontade, determinação ou persistência.
Observei apenas que não havia obtido uma mudança plena, não havia alcançado a transcendência e foi com essa compreensão e meta que voltei a fumar.
Hoje não sinto mais vontade ou sonho com cigarro e conheço pessoas, que mesmo após décadas, acreditam que se voltarem a tragar um cigarro, retornam ao vício.
É a transformação ou ausência de mudança na consciência que estou chamando de “fumante abstêmio”. Para o organismo no aspecto físico, o bem já havia sido alcançado, mas emocionalmente não havia ocorrido o aprendizado. Por isso voltei a fumar e essa pode ser uma das razões que leva um fumante a tentar parar de fumar mais que uma vez até que de fato consiga.
Acredito que todo ser humano é movido pelas suas escolhas, pelo seu livre arbítrio. Podemos mudar de opinião constantemente e provocar mudanças em nós mesmos e nos outros, e nas várias situações da vida.
É neste aspecto que podemos refletir sobre o que é vontade?
Vontade é o encontro com a essência em nosso Ser, com nossa alma e não pode ser confundido com desejo.
Desejo é algo transitório, um impulso mais instintivo ou relacionado ao biológico.
É o que um fumante ativo sente antes de acender um cigarro, dependência estabelecida tanto por aspectos bioquímicos quanto psicológicos.
Ao retornar ao cigarro fui movida pela minha vontade em superar um vício obtendo outros benefícios e desta maneira alcancei a transcendência neste aspecto da minha vida.
Minha verdadeira vontade não era a de fumar ou apenas parar, mas a de alcançar uma transformação plena, profunda.
Segundo Marina P. R. Boccalandro “vontade é o atributo do Espírito que nos torna humanos e senhores do nosso destino e das decisões tomadas. Ela é o instrumento com que realizamos a arte de viver”. (1)
Segundo Assagioli (2) a vontade é uma questão de experiência direta, como a experiência de sentir um sabor ou odor. É individual e indescritível e pode ser desenvolvida.
Ele utiliza três categorias ou dimensões para que isso ocorra. São elas: aspectos, qualidades e estágios.
Os aspectos da vontade humana plena são:
Vontade forte – é o aspecto mais íntimo e fundamental da vontade. É a força e a energia que se faz presente para iniciarmos qualquer projeto.
Vontade hábil – se nos apegamos apenas à força podemos nos tornar inadequado. A vontade hábil nos favorece para encontrarmos a melhor estratégia, ouvindo nossa vontade de modo direto e eficaz.
Vontade boa – esta categoria inclui o homem no todo, no Universo. O homem isolado não existe pois está em constante interação com o social e com o Cosmo. Neste aspecto nossas escolhas podem e devem estar harmonizadas com a felicidade dos outros e com o bem comum da coletividade.
Vontade transpessoal – este aspecto refere-se a ter as suas necessidades básicas ou não e ir à busca de um sentido mais amplo de sua vontade; ao encontro da autotranscendência.
Para Assagioli a vontade em suas qualidades diz respeito a ela ser enérgica, disciplinada, concentrada, determinada,persistente,corajosa e organizada.
Por fim os seis estágios que não são seqüenciais nem rígidos e podem ocorrer simultaneamente ou nem acontecer; isso porque podemos mudar de metas durante um processo. Quando todos os estágios ocorrem podem ser vistos como elos de uma corrente, ou seja, o próprio ato da vontade.
Os seis estágios da vontade são:
1º - Propósito, objetivo ou meta – nessa fase com base na avaliação, motivação e intenção temos que ter clareza do objetivo.
2º - Deliberação – nesse estágio observamos as diversas escolhas e optamos pela mais significativa.
3º - Escolha e decisão – elaboram uma estratégia considerando o que queremos e o melhor momento de realizá-lo.
4º - Afirmação – mantemos a decisão tomada com constantes resignificações de que essa meta é o que realmente queremos.
5º - Planejamento – nesse estágio pensamos nos meios pelos quais é possível realizar nossa vontade.
6º - Execução – é a fase final onde realizamos o que foi planejado.
Para concluir gostaria de deixar a reflexão:
Você realmente tem vontade de parar de fumar? Se sim, busque os auxílios necessários, pode ser de um profissional da área da saúde, um psicólogo buscando uma psicoterapia focal, uma leitura ou um mergulho em seu interior onde você encontrará forças até então desconhecidas e alcançá-las é sempre enriquecedor quando nos propomos a percorrer uma jornada. Afinal, inúmeras são as estradas mas apenas um só caminho. O caminho da evolução constante.
Referencia bibliográfica:
(1) Angerami, V. A. Espiritualidade e prática clínica. Thomson
(2) Assagioli, R. O ato da vontade. Cultrix.
Indicações de sites:
www.comoparardefumar.com.br
www.inca.org.br