| A Psicologia transpessoal e o psicodrama | |
| Rosana Machado CRP 06/34689-1 Psicoterapeuta |
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Compreendemos por paradigma, um conjunto de crenças, valores e técnicas compartilhados pelas pessoas que formam uma comunidade, incluindo também, o meio científico.
Com relação aos paradigmas científicos são universalmente reconhecidos e durante algum tempo direcionam as questões e respostas para os estudiosos inseridos neste período.
No início do século XX, época em que o fundador do Psicodrama (J. Moreno) fundamentou sua teoria, houve uma verdadeira revolução científica, onde o paradigma clássico foi substituído pelo moderno.
No paradigma clássico, a realidade era percebida pelos órgãos sensoriais, e observadas pelos instrumentos tecnológicos. Nesta perspectiva ciência e transcendência eram vistas como antagônicas. Fenômenos subjetivos e / ou transcendentais eram tidos como psicopatológicos.
Ainda predominando uma visão materialista as descobertas da Física Moderna, tais como a demonstração da equivalência de matéria e energia, contribuíram para as mudanças de paradigmas.
De um modo geral, o paradigma moderno se caracterizou por apresentar uma cisão entre o indivíduo e a sociedade, considerou o tempo como sendo linear e houve o predomínio da racionalidade.
Diante destas perspectivas surge um abismo entre o pragmatismo do Ocidente e a espiritualidade do Oriente.
Atualmente vivemos novas mudanças, promovidas também pela globalização.
Contribuindo e surgindo a partir dessas mudanças nasce o movimento transpessoal. A Psicologia Transpessoal tem o objetivo de valorizar a transcendência, estudar os estados modificados da consciência, acolhendo todas as experiências das pessoas inclusive aspectos que não estão relacionados aos dados biográficos.
Nesta abordagem o homem é visto como um ser integral, e o conceito de Unidade da não separatividade fundamentam as propostas teórico-prática.
Consideramos o homem nas dimensões corpo-mente-espírito, onde “vida, matéria e psique são compostas de eventos transitórios, manifestando-se diferentemente em constante interação”. (3)
O Homem é um ser
cósmico. Esta visão se faz presente também no psicodrama.
O ser cósmico, ou seja, a cosmovisão moreniana se faz presente
em seus escritos sobre a morte que é vista com o “sentido de
um renascimento, uma transformação, não um ato final,
mas um novo salto...” (1)
Vera Saldanha nos diz: “Moreno valorizava o divino. Revelou que toda
inspiração para seu próprio trabalho veio direta ou indiretamente,
de sua idéia sobre a divindade e do princípio de sua gênese
– segundo ele, Deus é um modelo de objetividade e imparcialidade.
O criador do psicodrama considerava Sócrates e Jesus seus professores”
(4)
Segundo Moreno, o desenvolvimento individual do ser se faz a partir da grande evolução em curso, que nos une através do Encontro.
Podemos entender o conceito de Encontro, que é uma das bases de seu pensamento filosófico, como compreendemos o conceito de tele. Para Moreno são sinônimos. ? a manifestação da energia de atração, rejeição e indiferença expressa nos vínculos e nas relações.
Para que essa experiência, o Encontro, possa ocorrer ”para que possa florecer a verdadeira integração do homem com os demais homens, e da humanidade consigo mesma, deverão ser superados os estereótipos técnicos, científicos e culturais, o que dará lugar, segundo Moreno, ao desenvolvimento da liberdade, da espontaneidade e da criatividade”. (1)
Ou seja, para o Psicodrama o homem é um ser saudável e cósmico. O trabalho psicoterapêutico pode ocorrer de forma lúdica, criativa e transformadora. Sua visão é sistêmica, onde as instituições ou grupos refletem no indivíduo promovendo seus desequilíbrios.
Desta maneira, os trabalhos de grupos promovem a saúde social.
A consciência no momento presente, no dia de hoje, se faz presente como aspectos importantes tanto na Psicologia Transpessoal (atenção desperta) como no Psicodrama (aqui-agora).
A consciência macro é entendida por ambas as abordagens como a consciência cósmica do grupo, do coletivo. Porém o trabalho no Psicodrama se realiza a partir de uma visão conceitual do social patológico, em que a sociedade contamina o ser humano.
A Psicologia Transpessoal não tem este entendimento da sociedade. O ser humano, o eu, o indivíduo corresponde à visão micro-cósmica e como nos diz Moretti “ao criarmos a harmonização através do processo terapêutico e do auto-conhecimento entre corpo-mente-espírito, passamos da visão micro-cósmica da realidade, para a visão macro-cósmica, a consciência de grupo”(2).
Podemos afirmar que os trabalhos grupais possibilitam uma visão expandida da realidade, sendo que na Psicologia Transpessoal, isso ocorre não apenas pela possibilidade de compartilhar situações, mas pela capacidade curativa aumentada e ampliação dos aspectos intuitivos.
Estando em grupo nos tornamos
mais que a somatória dos indivíduos, e no trabalho bipessoal
(terapeuta e cliente) compreendemos que quando uma pessoa se transforma, todo
o Universo se modifica. Ou seja, ciência e o sagrado caminham harmoniosamente.
A meu ver, outros conceitos e práticas são comuns em ambas as
abordagens: sociodrama, inconsciente grupal, improvisação, criatividade,
o cosmodrama..
Acredito que todo processo de aprendizagem se faz através do Amor, assim como o processo vivido na psicoterapia. Concebo o ser humano como sendo amor em essência e a alegria é uma das expressões do amor.
Moreno trouxe a alegria à psiquiatria, o lúdico, o aqui-agora, a confiança no cliente, na cura, na natureza saudável e divina do indivíduo. Ele foi precursor em intervir na família no setting terapêutico, e em olhar de forma sistêmica seus estudos de casos.
Na Psicologia Transpessoal vários são os autores que contribuem para nossos estudos. Entre seus fundadores podemos citar: S. Grof, K. Wilber, K. Ring, F. Vaugham, R. Prince, A. Watts, R. Metzner, L. Le Shan, P. Weil, Ram Dass, R. Woolger, David Lukoff, V. Frankl.
Acredito que Moreno encontra-se entre nós, precursores e discípulos, e em algum nível nos inspira para não nos apegarmos a uma teoria ou sistema, pois era em que ele acreditava que devíamos ir além, em busca do verdadeiro Encontro.
Bibliografia
(1) Menegazzo, Carlos
M. e colaboradores. Dicionário de Psicodrama e Sociodrama. São
Paulo. Editora Agora, 1995. Páginas 64 e 65.
(2) Moretti, Zilda. Apostila do 1° Seminário de formação
em clínica da Psicologia Transpessoal – A Arquitetura da Vida.
Texto não publicado.
(3) Saldanha, Vera. A Psicoterapia Transpessoal. Rio de Janeiro. Editora Rosa
dos Tempos. Pagina 178.
(4) Idem, ibidem. Página 27.